quarta-feira, 15 de março de 2017

A Moça Casta de Cheapside 1.2

[I.ii. Casa de MANSO.]

Entram DAVI e MANSO separadamente.
DAVI
Honestidade, lave-me os olhos, vi um corno manso.
MANSO Ora, Davi Venká? Bem vindo de Gales do Norte,
Deveras, e SIR WALTER, veio?
DAVI Recém chegado à cidade, senhor.
MANSO Vá até as criadas, doce Davi, e dê a ordem para que seus aposentos estejam prontos de imediato; minha esposa está inchada até não poder mais, Davi, e anseia somente por pepinos em conserva e pela vinda dele, e é o que ela vai ter, guri.
DAVI Ela não deve temer, senhor.
MANSO Só ver você já dará prazer a minha esposa, até que venha o fidalgo em pessoa. Entra, entra, entra, Davi.
Sai DAVI.
O fundador aí está; sou como homem
A achar uma mesa fornida à sua mão,
Como é sempre a minha, graças ao fundador;
Louvada a venerável vida do bom fundador.
Sou-lhe grato, mantém minha casa faz dez anos,
Não apenas a minha mulher, mas mantém a mim,
E toda a família; estou à sua mesa,
Ele me gera todas crianças, paga a ama,
Por mês ou por semana, a mim nada recai,
[crux] Aluguel, taxas d'igreja, nem a zeladoria1:
A melhor situação pr'a que homem já nasceu.
Eu vou caminhar de manhã, venho ao desjejum,
Vejo alegria geral, bom fogo no inverno,
Vê meu estoque de carvão lá pelo solstício,
Está repleto, cinco ou seis caçambas2, recentes;
Olho meu quintal, lá se encontra um campanário,
De lenha de Kent composto, o qual dá vista
Para a cisterna3 e os moinhos; eu nada digo
Só sorrio, e travo a porta. Quando ela pare,
Como agora, está já no ponto de grunhir,
Nem nobres parem como ela; é tanto relevo,
Bordado, lantejoula, e sei lá mais que,
Como que rodeada de todas lojas chics
Da Royal Exchange4; mais seus restorativos,
Capazes de enriquecer um jovem boticário,
E deixar bem o gerente da drogaria;
Açúcar, aos tabletes, vinho de barril.
Eu vejo essas coisas, mas feliz como sou,
Nada pago, e os tolos pensam ser tudo meu;
Carrego o nome, e em seu ouro eu brilho.
E enquanto uns mercadores iriam ao inferno
Para comprar um paraíso para as esposas;
E tingem a consciência com sangue dos pródigos
Para adornarem sua parceira; e, conseguindo,
Os ciúmes até seus ossos vão consumindo
Pois que aflição à natureza mais põe peias,
Do que cevar a esposa para outras veias? –
Desses tormentos estou livre, tão isento
De ciúmes de mulher quanto da incumbência.
Oh, duas bênçãos milacurosas; é o fidalgo
Quem tirou das minhas mãos todo esse labor;
Eu tenho sossego e diversão; ele, ciúme por mim –
Vigia-lhe os passos, põe espias – e eu tranquilo;
Cabem-lhe ambos custo e tormento; quando as cordas
De seu coração trastejam, como, rio ou canto:
Ai consolo-solo-solo, ai consolo-solo.”
Entram dois Criados.
1 CRIADO Que esribilho lhe vai pela cabeça agora?
2 CRIADO Agora, já aposentado, recorre a consolos.
MANSO Ora, senhores, Sir Walter chegou.
1 CRIADO Nosso mestre chegou?
MANSO Mestre? E que sou eu?
1 CRIADO O senhor não sabe, senhor?
MANSO Rogo, não sou eu seu mestre?
1 CRIADO Oh, é apenas o marido de nossa mestra.
Entram SIR WALTER e DAVI.
MANSO
Ergo, bandido, seu mestre.
1 CRIADO Negatur argumentum. Lá vem Sir Walter.
[MANSO tira o chapéu.]
[À parte a 2 CRIADO] Olha ele descoberto como nós; use-o à vontade, ele está um tento acima de um serviçal, e isso por causa dos chifres.
SIR WALTER Como vai, Zé?
MANSO Feliz por vossa saúde, senhor.
SIR WALTER Como vai a esposa?
MANSO Do jeito que o senhor a deixou,
Ela dá suas escorregadas5, nariz e barriga se tocam.
SIR WALTER
Já vão se separar de novo.
MANSO
Em boa hora vão sim, e para vosso agrado.
SIR WALTER Aqui, lacaio, puxa minhas botas. Cubra-se, Zé.
MANSO Agradeço a gentileza de vossa excelência, senhor.
SIR WALTER
Sandálias! Ora, está dormitando.
MANSO
[À parte] O jogo já se inicia.
SIR WALTER
Eia, cubra-se Zé.
MANSO
[À parte] Agora eu obedeço, ou ele fica tão bravo quanto se eu me tivesse coberto à primeira instância; basta observar os humores dum homem uma vez, e se pode tê-lo no arreio toda a vida. [Põe o chapéu]
SIR WALTER 
Quem foi recebido por aqui?
Nenhum estranho na minha ausência?
1 CRIADO
Por certo que não, senhor, nenhum.
MANSO
[
À parte] Começou com ciúmes, não sou eu feliz agora
Que posso rir pra mim mesmo enquanto ele fica amarelo6?
SIR WALTER E como pode provar?
1 CRIADO Bom senhor, tem paciência.
SIR WALTER Para uma ausência de dois meses, quero prova.
1 CRIADO Criatura viva alguma penetrou...
SIR WALTER Penetrou? Vamos, jura...
1 CRIADO O senhor não termina de me escutar...
SIR WALTER Sim, senhor, pois termino.
1 CRIADO Senhor, ele pode lhe dizer em pessoa.
SIR WALTER Ora, pode dizer!
E acha que confio nele? Como a um usurário
Com hipotecas vencidas. Nele? Injúria monstruosa!
Acreditar nele? E o diabo fala mal da escuridão?
O que o senhor diz?
MANSO Por minh'alma e consciência,
Senhor, é uma esposa tão casta de seu corpo
A mim quanto a distinta dama de qualquer lorde.
SIR WALTER No entanto, ouvi dizer que já tencionou
Ir pr'a cama com ela.
MANSO Não, de modo algum, senhor.
SIR WALTER Ora, se for, eu levo tudo... Me caso.
MANSO Lhe rogo, senhor...
SIR WALTER [À parte?]
Isso acorda o velhaco,
E lhe deixa as carnes trêmulas.
MANSO
[À parte] Eu tapo esse furo
Onde eu o encontrar aberto; já envenenei
Suas esperanças de casamento antes...
Umas viúvas ricas, e umas virgens com terra...
Entram duas crianças [Waltinho e Cardo].
E sigo me empenhando antes de perdê-lo,
Ele ainda é doce demais para que parta.
WALTINHO Boa noite, pai.
MANSO Ah, maroto, quieto.
CARDO
Boa noite, pai.
MANSO Quieto, bastardo.
[À parte] Se ele os ouvisse! São duas crianças tolas,
Não sabem o cavalheiro que aqui está.
SIR WALTER Oh, Waltinho, como vai, Cardo? Indo à escola,
Devorando os livros, hein?
[Saem WALTINHO e CARDO]
MANSO
[
À parte] Donde as mesuras, filhos duma....?
Eles se ajoelhariam sem dúvida se soubessem rezar.
SIR WALTER
[
À parte] Deix'eu ver, fiquem,
Como posso dispor desses moleques agora
Quando me casar, pois não devem se misturar
Entre os filhos que obtiver no matrimônio,
Vai ser trabalho sujo, isso, erguer falação.
Waltinho, aprendiz d'ourives Dourado meu sogro;
Melhor não dá. Cardo em vinícola; bom, ouro
E vinho; servido em tigela d'oiro, é certo.
Entra a Esposa de MANSO.
[SRA. MANSO] Doce fidalgo,
Bem vindo; todos meus desejos compareceram,
Agora é bem-vinda a boa hora.
SIR WALTER
Como vai minha senhora?
[SRA. MANSO] Aliviada, mesmo por aquele que me deixou pesada.
SIR WALTER Penso que ela está galante, como uma lua cheia, senhor.
MANSO Verdade, e se for filho homem, lá está o homem na lua, senhor.
SIR WALTER Ainda é o pirralho na lua, meu bom bezerro7.
MANSO Lá esteve um homem; ou o pirralho lá não estava.
SIR WALTER Será seu, senhor.
[saem SRA. MANSO e SIR WALTER.]
MANSO
Não, em nome da verdade,
Vou jurar que nada tem de meu, que quem gerou
Que crie. Assim me livro d'importunação,
Deito e durmo bem, bebo vinho, como bom pão.
[Sai.]

quinta-feira, 2 de março de 2017

A Moça Casta de Cheapside 1.1

I.i. Rua em frente à loja de DOURADO.

Entram Rosinha e Moll, uma loja é descoberta1.
ROSINHA A senhorita praticou suas lições ao virginal?
MOLL Sim.
ROSINHA Sim, você tem sido uma parva por esses dias, penso que precisa de algo pra avivar essa anemia2; tá chorando? Um marido. Não tivesse tal pedaço de carne sido instituído, para que de bom serviríamos nós esposas? Para fazer saladas, ou então sermos apregoadas por aí como couve3. Está tudo mudado nestes tempos! Quando eu era da sua mocidade, eu era ligeira, e fecunda, dois anos antes de casar. Você se presta à cama de um cavaleiro – semblante sonolento, olho mortiço e espírito embotado! Aposto minha vida que esqueceu sua dança: quando esteve o dançarino com você?
MOLL Na semana passada.
ROSINHA Semana passada? Quando eu tinha seu calibre4, ele não me falhava uma noite, era minha ocupação; eu me deleitava em aprender, e ele em me ensinar, belo cavalheiro moreno, sentia prazer em minha companhia; mas você é devagar, não emana agilidade em nada, dança como uma filha de encanador, e merece duas mil libras em chumbo para seu casamento, e não em mercadoria de joalheiro.
Entra DOURADO.
DOURADO
Ora, qual é balbúrdia entre mãe e filha, hein?
ROSINHA
Acredite, coisa pouca, alertando sua filha Mary de seus delitos.
DOURADO
Delitos”! Não, a city não lhe basta, mulher, que você precisa buscar palavras em Westminster; pra mim, basta, acredite. Será que nenhum funcionário de advogado esteve aqui recentemente e trocou a moeda de meia-coroa que sua mãe lhe enviou, ou ainda enganou você com uma de dois pence folheada, para por em voga a palavra para as faltas e fissuras no dever e na obediência dela, chamemos assim mesmo, doce esposa? Assim como não há mulher feita sem falha, o linho mais puro desfia, e a cambraia esgarça5.
ROSINHA Mas é um marido que calafeta todas fissuras.
MOLL Como é, ele está aí, senhor?
DOURADO
Sir Walter está aí.
Foi visto na Ponte Holborn6, acompanhado
De bela e composta senhorita, que penso,
Dado o pelo rubro e outras luxuriâncias,
Ser sua sobrinha (com terra!) q'vem de Gales,
Que seu Tim (guri de Cambridge) vai desposar.
São núpcias pensadas pelo próprio Sir Walter
Que a ele nos ata, e a nossos herdeiros.
ROSINHA É uma honraria então, fosse a rapariga humilde,
E o beijasse com devoção ao entrar.
Eu não consigo fazê-la, por minha vida!
Postar suas mãos assim, na frente e atrás,
Como buscam cavaleiros, na frente e atrás.
Sempre lhe digo, é meneio de mulher
Que sói mover um homem, e funciona bem.
Mas, meu bem, alguém foi enviado a Cambridge,
Tim foi avisado?
DOURADO
Foi desde o dia seguinte àquele em que você enviou a ele a colher de prata para tomar sua sopa no salão, junto a sua confraria privilegiada7.
Rosinha Oh, em bom tempo.
Entra Mensageiro.
DOURADO
O que seria?
MENSAGEIRO
Carta de um cavalheiro de Cambridge.
DOURADO Oh, um dos mensageiros de Hobson8, bem-vindo. Eu disse a você, Rosa, que receberíamos notícias de Tim. [Lê carta] Amantissimis charissimisque ambobus parentibus patri et matri.
ROSINHA Do que se trata?
DOURADO Não, por minha alma que não sei, não me pergunte, ele ficou verbal demais; esse estudo é uma bela bruxa.
ROSINHA Eu lhe rogo, deixa-me ver, eu costumava entendê-lo. Amantissimus charissimus, ele mandou o lacaio do cocheiro, diz ele; ambobus parentibus, buscar um par de botas; patri et matri, paguem ao mensageiro, ou pouco importa.
MENSAGEIRO Sim, pelos céus, minha senhora, não há como interpretar isso, eu me esforcei um bocado, e venho da estalagem9 suando. Deixa eu tentar, já que fui acadêmico quarenta anos atrás; é assim, garanto: Matri, pouco importa; ambobus parentibus, buscar um par de botas; patri, paguem ao mensageiro; amantissimis charissimis, é o lacaio do cocheiro, e seu nome é Sims, e nisso ele diz a verdade, meu nome é mesmo Sims; não esqueci todo meu estudo. Questão de dinheiro, eu sabia que ia acertar.
DOURADO Você é uma raposa velha, toma seis pence pra você.
MENSAGEIRO Se eu ver o doutor na Feira da Galinha10, eu tenho iguaria para o senhor.
DOURADO Ora, você mora em Bow?
mensageiro A vida toda, senhor; e em Bow, 'cê tá11 convidado a provar da galinha. Adeus ao doutor.
Sai Mensageiro.
DOURADO
Um mensageiro divertido.
ROSINHA
E como poderia ser diferente, vindo com cartas de Cambridge do nosso filho Tim?
DOURADO O que é isto aqui? [] Maximus diligo. Santa misericórdia, eu devo buscar aconselhamento gabaritado para esta questão, ou nunca vai ser discernida.
ROSINHA Busca meu primo então, na Escola de Direito12.
DOURADO Arre, eles são cheios de Francês13, não falam latim.
ROSINHA Então o vigário consegue.
Entra um cavalheiro com uma corrente.
DOURADO Não, ele nega, chama ao latim coisa de católico, não quer ter nada a ver. Do que é que precisa, cavalheiro?
CAVALHEIRO
Por favor, pese esta corrente.
Entram Sir Walter Cachorrão, Senhora Galesa e Davi Dahumma.
SIR WALTER Ora, moçoila, seja bem vinda ao coração da cidade de Londres.
SENHORA GALESA
Dugat a whee.
SIR WALTER Você pode me agradecer em inglês, se quiser.
SENHORA GALESA
Posso, senhor, de modo simples.
SIR WALTER Vai dar de sobra, moça; seria estranho eu me deitar contigo tanto e te deixar sem inglês; seria desnaturado. Eu te crio pra te transformar em ouro, e fazer sua fortuna brilhar como o seu brilhante ramo de atividade. O negócio de um ourives pode criar uma donzela da city. Davi Dahumma, nem uma palavra.
DAVI Mmm. Mudo, senhor.
SIR WALTER Aqui você deve se passar por uma virgem.
DAVI
[
À parte] Pura virgem galesa, perdeu o cabaço em Rhompeemen14.
SIR WALTER Eu te ouço ruminar, Davi.
DAVI Eu tenho dentes, senhor, não preciso ruminar pelos próximos quarenta anos.
SIR WALTER O bandido está afiado.
DOURADO Qual é seu preço, senhor?
GENTLEMAN Cem libras, senhor.
DOURADO Cem marcos15 no máximo, ou não é para mim.
[Sai o cavalheiro.]
Veja só, Sir Walter Cachorrão?
MOLL
Pela minha morte!
Sai Moll.
ROSINHA Ora, filha; nossa! a rapariga, vê,
Garota arredia; jovens são desconfiadas.
Além disso, o senhor tem uma presença, Sir Walter,
Capaz de intimidar uma donzela da city;
Entra Moll.
Nobres almas da corte as fazem tremer,
E abraçar16 com as pernas sacodindo. Lá vem ela.
SIR WALTER
Ora, vem cá, bela senhorinha, agora eu te peguei. Como, você faz tanta injúria a seu tempo fugindo assim de seu fiel criado?
DOURADO Shh, deixa essas palavras, bom cavaleiro, vai fazê-la corar do contrário, elas soam elevadas demais para as nativas da city. “Honra”, e “fiel criado”, são elogios para as notáveis de Whitehall ou Greenwich. Palavras da lida mesmo, comuns e suficientes, nos servem, senhor. E esta dama é sua valorosa sobrinha?
SIR WALTER O senhor pode se insinuar a ela nesses termos; é ela, senhor, herdeira de umas dezenove montanhas.
DOURADO Deus nos abençoe, o senhor me cumula de amor e riquezas.
SIR WALTER E todas altas como a Catedral de St.Paul.
DAVI Olha o golpe!
SIR WALTER O que disse, DAVI?
DAVI Mais altas, senhor, de longe: não dá pra ver o cume delas.
DOURADO O que, homem? Rosinha, saúda esta senhora, nossa nora se tudo der certo.
Entra ESPOLETA Junior.
ESPOLETA JUNIOR
[
À Parte] Meu cavaleiro, com uma parelha de lacaios,
Cá veio e trouxe consigo sua franguinha
Pr'encontrar um galo em Londres; devo ter pressa,
Ou então passar fome; seu desejo é meu,
Eis o mais certo. Bem, cavaleiro, tal espólio
Seleto p'ra mim está guardado.
MOLL
[
À Parte a ESPOLETA Junior] Senhor?
ESPOLETA JUNIOR
[A Moll, passa-lhe um bilhete] Não me busques até que o possas fazer na lei,
Aguças mais meu apetite, que tamanho
Já é. Lê com atenção este bilhete,
Não me levantes suspeita, nem reconheças
Meu zelo alhures que em teu peito:
Lê e envia tua reação em três palavras,
Estarei pronto a recebê-la.
DOURADO Oh, vire-se, senhor, vire-se.
Um pobre rapaz normal, vai à universidade,
Atinge na quaresma o Bacharelado em Artes;
E será chamado de Sir Dourado, então,
Por toda Cambridge, e isso já é meia nobreza.
ROSINHA Gostaria de se aproximar e provar da recepção da city, senhor?
DOURADO Vem, Sir Walter, e esta sua virtuosa sobrinha.
SIR WALTER É das boas maneiras aceitar a gentileza.
DOURADO 
Leva eles para dentro, mulher.
SIR WALTER Sua companhia, senhor.
DOURADO Já a concedo.
ESPOLETA JUNIOR
[
À Parte] Como se intrometem o diabo e as riquezas;
Pobre alma, duro cárcere, o olho da mãe
É cruel com ela, ao favorecê-lo.
Seria divertido agora fazê-lo trabalhar
Em um anel de casamento pra ela. E vou.
Antes que o lucro fosse de qualquer estranho,
É honesto que eu enriqueça meu sogro.
DOURADO
[
À Parte] A garota é teimosa demais; o que temo
Mais que tudo é que já tenha outros amores,
Aí desfez-se tudo; deve-se acompanhar;
Não se pode ter cuidado demais com os filhos...
Do que precisa?
ESPOLETA JUNIOR Oh, nada agora, tudo que desejo está presente. Eu preciso de um anel de casamento para uma nobre dama, com a rapidez que for possível.
DOURADO De que peso, senhor?
ESPOLETA JUNIOR Algo como meia onça17, cravado, belo e harmonioso, com a centelha de um diamante. Senhor, seria um crime desperdiçar tanta beleza.
DOURADO 'Favor, deixa eu ver; de fato, senhor, é dos puros.
ESPOLETA JUNIOR Assim como a nobre senhorinha.
DOURADO O senhor tem a espessura do dedo dela?
ESPOLETA JUNIOR Ora se não, a minha dimensão mais importante.
[Procura um papel] Pelos céus, escondeu-se, não posso mostar,
Preciso por tudo pra fora pra ter certeza.
Deix'eu ver: longos, esguios, de nós bem compostos,
Uma nobre moça tal como sua filha, senhor.
DOURADO E portanto, senhor, nenhuma nobre.
ESPOLETA JUNIOR Garanto jamais ter visto mãos tão similares;
Não procuro mais, se o senhor o consentir.
DOURADO 
Se quer se arriscar com o dedo dela, senhor.
ESPOLETA JUNIOR 
Sim, e assimilo qualquer prejuízo, senhor.
DOURADO É mesmo, senhor? Vamos ver; filha!
ESPOLETA JUNIOR Posso me servir de seu dedo, minha nobre?
MOLL A seu dispor, senhor.
ESPOLETA JUNIOR Entrou direitinho, senhor.
DOURADO E o que vai gravar, senhor?
ESPOLETA JUNIOR Nossa, tem isso, a gravação; assim, senhor:
Amor sagaz cega os pais.”
DOURADO Ora, o que? Se puder falar sem ofensa, senhor,
Pela minha vida...
ESPOLETA JUNIOR O que, senhor?
DOURADO Vamos, o senhor me perdoa?
ESPOLETA JUNIOR
Perdoar?
Claro, senhor.
DOURADO
Perdoa mesmo?
ESPOLETA JUNIOR
Sim, garanto.
DOURADO Você vai é roubar a filha de alguém, estou quente?
Por que se vira? Vocês da nobreza são uns pândegos;
Não sei como conduzem a coisa tão à surdina,
E os pais se cegam tanto, mas eles merecem,
Tendo dois olhos e visão tão fraca.
ESPOLETA JUNIOR
[
À Parte] Que lhe caiba seu destino.
DOURADO Amanhã ao meio dia o anel estará feito e bem feito.
ESPOLETA JUNIOR Assim sendo, é logo em breve; grato, e sua licença minha doce nobre.
Sai.
MOLL
Não foi nada, senhor.
[À Parte] Fora eu feita de desejos, iria contigo.
DOURADO Bem, vejamos como está a bagunça lá dentro.
MOLL Perco o que ganhei; isso me tira do centro.
[Saem.]